Do que você menos gosta na vida?

Outro dia fui confrontado com uma pergunta sobre a qual não havia pensado ainda. Normalmente damos ênfase para os aspectos positivos de nossa vida num processo de visão otimista que nos leve adiante em nossos sonhos e projetos. Naquele dia foi diferente. Após um encontro com jovens, um deles se aproximou de mim e perguntou:

– Professor, do que o senhor menos gosta na sua vida?

Fiquei pensativo. O evento também tratava de questões negativas, mas o enfoque era positivo. A pergunta do jovem, entretanto, leva-me para uma análise diferente sobre aspectos que são reais em nossas vidas. Depois de alguns momentos respondi:

– Estar numa cadeira de rodas é o que eu menos gosto, acredito. Com certeza essa é a situação da que eu menos gosto.

A conversa continuou, mas no caminho para casa eu não estava satisfeito. Continuei a pensar na pergunta e cheguei a uma conclusão diferente da resposta dada. Não era estar numa cadeira de rodas a situação da qual eu menos gostava na vida. Certamente que não era uma situação confortável ou desejável, mas ela apenas representava algumas limitações a que eu estava sujeito e que já não dependiam de mim. Por isso, não fazia mais sentido eu dirigir a minha energia para o fato de eu estar numa cadeira de rodas, porque isso já não estava no meu controle. Foi então que eu consegui diferenciar que no fundo o que eu menos gostava na minha vida era ser um cadeirante. Mas qual a diferença entre estar numa cadeira de rodas e ser um cadeirante?

Há sim uma grande diferença entre uma e outra situação. Por um lado, eu estar numa cadeira de rodas significava saber usá-la para ir para lugares que sem ela eu não poderia ir. Eu deveria ser e quase sempre sou um usuário da cadeira de rodas. Ela amplia as minhas possibilidades ao me permitir fazer coisas que sem ela não posso fazer. Por outro lado, ser um cadeirante é limitador. Ao assumir que eu sou um cadeirante eu incorporo as limitações que esse fato traz em si. Olhar a vida como sendo um cadeirante faz com que se vejam as impossibilidades e foi a essa reflexão que a pergunta daquele jovem me levou.

Desse modo, atuar nas situações sobre as quais nós temos controle é que nos amplia as possibilidades. O que eu posso fazer com as qualidades que eu tenho? Quais as potencialidades latentes que eu posso desenvolver? Com essa visão nós não nos acostumamos às situações difíceis que a vida nos impõe. Podemos e tendemos a nos adaptar a essas situações para delas extrair o melhor. Isso nos permite entender que as nossas ações afetam os outros, assim as ações dos outros nos afetam e cabe a cada um de nós decidir como nós vamos afetar o mundo. Explorar todas as potencialidades sendo o melhor que se pode ser com as qualidades que se possui é a melhor forma de afetar o mundo positivamente.

Do que eu menos gosto na vida? Quando eu incorporo no meu comportamento as limitações e deixo de ver as possibilidades. E você?